João Carreiro e Capataz – A dupla que era além dos tempos, e nem eles sabiam

João Carreiro e Capataz – A dupla que era além dos tempos, e nem eles sabiam

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João Carreiro e Capataz, uma dupla sertaneja que despontou no cenário nacional no ano de 2009 formada por João Sérgio Batista Corrêa Filho, o “João Carreiro” e Hilton César Serafim da Silva, o “Capataz”.

A dupla foi batizada de João Carreiro e Capataz porque os dois são fãs de Tião Carreiro e Pardinho e logo no início da chamada virada de chave da nossa música sertaneja eram aqueles que faziam uma linha totalmente arrojada, surpreendente e oposta ao que acontecia no mercado musical, seja com letras nas músicas, nas produções musicais ou no vestuário da dupla.

Será que na época eles tinham a noção exata do quanto eles estavam destacando-se no cenário sertanejo e virando uma referência a nova geração que estava por vir???

Nos títulos de suas músicas existiam termos fortes, daqueles que viriam para marcar uma geração toda assim como “Bruto, Rústico e Sistemático”, “Xique Bacanizado”, “Tá Bagunçado Mas Tem Gerência”, “Faculdade da Pinga”, “Lágrimas de Crocodilo” entre muitas outras. Nessa época as músicas chamadas “Românticas” eram 98% do mercado nacional sertanejo e a dupla veio com arranjos de guitarras distorcidas, uma vanera totalmente dançante que já era uma base de sucesso do Grupo Tradição que tinha em seus vocais Michel Teló, que ninguém nem sabia o nome do cantor, porém referiam-se ao “Loirinho do Tradição”.

Mas João Carreiro e Capataz eram diferentes de tudo e de todos, faziam músicas para o público universitário mesmo, tendo até gravado um DVD (que já naquela época era ousadíssimo esse projeto) na cidade universitária de Maringá-PR. Defendiam o som da viola caipira, a linguagem caipira e os termos falados sem a grafia correta como por exemplo “O Que Será Que Nóis Não Tem”, “Cemo Porque Cemo” e etc.

João Carreiro, um jovem que muitos não tinham ainda visto a imagem da pessoa o associavam a alguém de maior idade por destacar-se com sua voz grave, enquanto Capataz desenhava uma segunda voz para dar mais força e elevar o poderio da primeira voz de João Carreiro.

A dupla cada vez mais ia aumentando a sua legião de fãs e admiradores da bandeira sertaneja, o que tornava cada vez mais João Carreiro e Capataz exemplo para todos. Lembro-me muito bem que poucos artistas da nossa música eram copiados na forma de se vestir, e eles eram copiados. Chapéus com os rebites nas abas e a famosa cruz no meio eram vistos em boa parte do público nos shows, vendedores vendiam os chapéus entre o público e eram o maior sucesso enquanto o show rolava.

João Carreiro e Capataz era tão à frente do seu tempo que em seus shows conseguia mesclar músicas como “Exagerado” de Cazuza com “Cio da Terra” conhecida nas vozes de Chico Buarque, Milton Nascimento e Pena Branca e Xavantinho no repertório. Eles saíam de uma linha totalmente oposta ao que se propõe em identidade de shows, era absurdo a habilidade deles em serem cantores com expressão própria e o público comprava a ideologia da dupla.

A dupla começou até a ser acusada de homofobia naquela época pela comunidade LGBT, por trechos da música “Bruto, Rústico e Sistemático” que dizia assim: “Sistema que fui criado, Ver dois homem abraçado, Pra mim era confusão, Mulher com mulher beijando, Dois homens se acariciando, Meu Deus, que decepção. Mas nesse mundo moderno, Não tem errado e nem certo, Achar ruim é preconceito, Mas não fujo à minha essência, Pra mim isso é indecência, Ninguém vai mudar meu jeito”. E o assunto deu o que falar em todo o Brasil, mas é como a gente sabe e um velho ditado diz “Ninguém bate em bêbado né”, e essa repercussão toda só mostrava o quanto era grande o sucesso de João Carreiro e Capataz.

Até concursos públicos João Carreiro e Capataz foram tema de uma questão que pedia o nome de uma dupla sertaneja no concurso da Empaer (Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural. A pergunta questionava o nome artístico pelo qual eram conhecidas “duas celebridades” mato-grossenses que “se destacam pela ligação ainda forte com a música sertaneja de raiz” E citava o nome de batismo da dupla.

E a dupla em enorme crescimento nacional tinha uma carreira tão avassaladora que ainda teve DVD não lançado, pronto para o lançamento, guardado na gaveta com o fim da dupla gravado em Cuiabá-MT. É claro que a dupla não iria passar por um fim comum, foi realmente um fim triste que naquele momento poucos entenderam que era um “fim de momento” já que João Carreiro passava por sérios problemas de saúde, e que pela grandiosidade da dupla a proporção foi exageradamente maior culminando com o fim da dupla de verdade e não só uma pausa na carreira (o que seria mais correto naquele momento).

No início de 2014 aconteceu a separação de fato, e João Carreiro abandona totalmente a carreira musical para se tratar com o aconchego da família, mas de novo essa escolha não seria uma escolha comum vinda de João, ele fugiu da cidade e resolveu ir morar no interior do Mato Grosso, no meio do mato mesmo de uma forma que ele não tinha contato nenhum com quem quisesse falar com ele e ajudar de alguma forma. Claro que não podemos culpar alguém que toma uma decisão dessas e muito menos culpar também o Capataz de procurar um outro parceiro de dupla para que continuasse a cantar depois de um período.

Muitas fofocas surgiram naquele momento sobre a saúde de João Carreiro já que o público ficou perdido sem saber nada sobre seu ídolo e quanto menos informações mais cresce a maldade do povo em dizer coisas que nem sabiam a veracidade do assunto, mas que de alguma forma não era o correto a se dizer num momento assim tão difícil.

João Carreiro tinha o chamado TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) aliado a uma forte depressão que o fez até quase se matar. Ele chegou a comentar que “O TOC gerou muita imagem de tragédia em minha mente. Não pensava em voltar aos palcos. Pensei em ficar no meio do mato e até em me matar. Fiquei com medo de tudo” disse João.

Depois desse período enquanto João Carreiro tratava-se, o parceiro Capataz formou nova dupla com Gustavo Viola, que foi batizado de Carreiro e que tem um timbre vocal bem parecido com João e seguiu adiante na sua trajetória musical.

Pouco tempo mais tarde já curado João Carreiro surge com músicas religiosas escritas por ele e gravadas sem divulgação nenhuma do projeto e depois com um álbum solo, selando assim a sua volta aos palcos da música, tornando ele próprio em um artista no qual a imagem só ficou maior em relevância no meio sertanejo.

Mas e hoje, no fim do ano de 2017 vocês conseguem ter a noção exata do que significa João Carreiro e Capataz na música sertaneja??? Qual seria o estágio de sucesso que essa dupla teria atingido nos dias atuais se a carreira continuasse na mesma velocidade que encontrava-se???
Só sei que a dupla é uma das que mais fazem falta na nossa música com o passar dos anos, a sua arte jamais surgiu em outro artista nesse período e o público sim continua órfão de tudo aquilo que um dia se desenhava a ser uma das melhores duplas de todos os tempos na música sertaneja.
Mas desejamos muita saúde e sucesso no caminho de João Sérgio e Hilton César sempre, dois personagens dessa história principal que serve de exemplo para as novas gerações, tanto na parte pessoal e humana quanto na parte artística e musical.

Texto: Mauricio Ferigato

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